quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Peru de garfo #1: Com vocês, a chicha morada!

As cebolas atrás são meramente randômicas e não participam dessa receita
O maíz morado é um tipo de milho que só cresce na região andina. Aqui no Perú esse milho escuro é bem comum e é o ingrediente principal do suco mais típico daqui: a Chicha Morada. Em cada lugar que se toma ela tem um sabor diferente, por isso acredito que cada cozinheiro tenha um ingrediente secreto, mas a receita básica é essa aqui:

- 3 ou 4 espigas de maíz morado
- Casca de abacaxi
- 2 paus de canela
- 6 ou 5 cravos-da-índia
- 3 ou 4 limões

A receita é bem idiota, ok? Seguinte: você tira os milhos da espiga e enfia tudo em uma panela com água. Ferve a água com o milho, a casca de abacaxi, cravo e canela. Deixa cozinhando por 15 ou 20 minutos. Espera esfriar e penera. Bota na geladeira. Quando ela estiver delicinha de gelada você coloca o limão. O limão na real não é para dar sabor, é só para fazer com que a chicha não fique com um sabor tão forte. A aparência final é a de suco de uva de caixinha. Mas o sabor é bem diferente. É doce, mas não tem nada a ver com o sabor do milho que a gente conhece.

A Chicha Morada também é vendida pronta no mercado, mas o mais comum é que as pessoas a façam em casa. De tanto que gostam do sabor, há outros produtos com sabor de chicha. Eu já encontrei sorvete, picolé, chupa chupa, bala e pirulito.





domingo, 27 de janeiro de 2013

Chiclayologia

Máscara de olhos alados do Senhor de Sicán

Na escola, a gente aprende sobre os Incas e sobre como eles eram fodas em sua agricultura e ao lidar com ouro e tudo mais. E é bem por aí mesmo. Mas desde que eu cheguei aqui, tenho descoberto que a cultura pré-colombiana é muito mais do que Cuzco e aquela coisa lindideus que é Machu Picchu.

Depois de levantar de madrugada (imagina o bom humor) e de três horas de viagem, cheguei em Lambayeque, para conhecer um pouco mais sobre algumas culturas aqui da região norte: os Sipán e os Sicán. Dizem que o museu onde estão os achados arqueológicos e a tumba do Senhor de Sipán é o melhor do Perú. Não sei se é o melhor, mas o lugar é sim muito bem guardado. Te revistam antes de entrar e nada de câmeras fotográficas para não danificar as peças. Ou seja, nada de fotos. Dá para entender o medo, já que a riqueza que encontraram com esse cara é incrível. Muitos objetos de ouro puro, cerâmicas muito detalhadas, jóias que dão vontade de levar pra casa e colares de spondylus, uma concha que era sinal de status. Junto com ele uma galera morta, que se sacrificou voluntariamente, querendo morrer com o seu Senhor. Sua esposa preferida, um guardião, um sacerdote... todos para o acompanharem na entrada do novo mundo. Ah, e o dress code para os acompanhantes é sem os pés, que eram arrancados dos cadáveres para que eles não levassem a sujeira desse mundo para o lado de lá.

O Spondylus da riqueza

Os mistérios de Sicán
Apesar do museu de Sipán ser mais moderno e mais rico em detalhes, gostei mais do "humirde" museu de Sicán. A mim o que me atraiu mais é a aura de mistério que envolve esse povo e a tumba de seus senhores. Coloco uma foto para ajudar na explicação, sim? 

Senhor de Sicán: Eternamente desconfortável

O senhor de Sicán foi enterrado de cabeça para baixo em posição fetal. Ao lado dele duas mulheres e uns objetos. A da esquerda simboliza a parteira e a que foi sacrificada deitada seria a mulher grávida, parindo o Senhor no outro mundo. A posição em que ele se encontra corrobora o fato de que ele estaria em uma espécie de útero pós morte. Mas na real ninguém sabe qual é a da máscara na cara e nem o porquê arrancaram a cabeça dele, fazendo-o olhar para um determinado sentido.
O outro senhor foi encontrado olhando para o mesmo sentido, só que foi enterrado com um verdadeiro harém. Se sabe que os dois senhores tiveram algum tipo de parentesco (avô e neto ou tio e sobrinho) e que as mulheres sacrificadas eram primas ou irmãs de quatro famílias distintas. Ah, vou botar uma foto do outro senhor também:

A língua desses povos se chama Muchik e até hoje tem gente que a fala. Não é muita gente, nada que se compare ao Quéchua, que é bastante falado no sul do país. Mas os locais, muitos dos quais têm sobrenomes vindos desses povos, estão engatinhando na valorização dessa cultura. O esforço mais representativo é o concurso que anualmente elege uma espécie de Miss e Mister Sicán, que devem saber falar ao menos um pouco do idioma.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O mototáxi: aventura ou quase morte?



Reza a lenda (que eu acabo de inventar) que em Piura existem mais mototáxis do que gente. O meio de transporte é o mais usado pelos piuranos, já que aqui não existe transporte público: a quem não tem carro, só restam táxis e vans. O primeiro é mais caro e a segunda, apesar de mais barata, tem pouquíssimas rotas dentro da cidade.

Apesar de barato, o mototáxi não tem muita estrutura. Antes de entrar, é recomendado verificar se a sua antitetanica está em dia. E se o seu equilíbrio está bom, já que (pasmem) a grande maioria dos mototáxis não tem porta.

Por isso, se por acaso eu morrer em Piura, a culpa não será do Sendero Luminoso, cobras amazônicas venenosas ou mesmo dos químicos presentes na Inca Kola. Mãe, se eu não voltar pra casa, a culpa vai ser do mototáxi.

Pelas ruas de Piura
O tremeliquento meio de transporte faz parte da minha aventura diária em me locomover em Piura. Apesar de ser uma cidade pequena, a falta de infra estrutura faz com que o trânsito seja mais caótico do que eu esperava. Não que haja engarrafamentos, mas semáforos são raros e até hoje não vi nenhuma faixa de pedestres.

Os motoristas até que respeitam os poucos semáforos que existem, mas ninguém usa a seta. Os mototaxistas nem seta têm. Ao fazer uma curva, o condutor estica a mão para indicar a direção em que vai virar. Sim, ele tira uma das mãos do guidão enquanto faz a curva do veículo sem portas.

Barganhas e assaltos
Antes de sentar no banco de trás, a pechincha é de praxe. "Independentemente do preço oferecido, peça menos 50 centavos", me dizem. Eu o faço só para não me sentir trouxa, porque os valores sem negociação já são bem baixos para os nossos padrões. Um trajeto que se faria a pé em 40 minutos sai por menos de dois reais, o valor de uma bandeira em São Paulo.

Ah, mas nada de mototáxi depois das 19h. Quando o sol se põe, as ruas ficam mais vazias e há quem se aproveite da velocidade baixa do veículo para assaltar seus passageiros. À noite a melhor opção é também a mais cara: os chamados táxis seguros, aos quais você liga, informa o destino, e em cinco minutos recebe um taxista mal humorado com um preço tabelado (nada de negociações).

Mas de dia, o meu preferido é sem dúvida o mototáxi. Além de economizar uns soles, em que outro meio de transporte você veria o motorista fazendo a ré com os pés, no maior estilo Fred Flintstone?

Os caminhos que levam a Piura

Foi tudo muito rápido. O convite para ir a Piura trabalhar por dois meses veio 15 dias antes do meu embarque para terras Peruanas. Com tão pouco tempo para o planejamento, uma passagem aérea, apesar de salgadíssima, foi a minha opção. Mas há muitas formas diferentes de se entrar no Peru e de então chegar à Piura. Deixo aqui as sugestões (das convencionais às não tanto) que me passaram pela cabeça:

- Avião: As empresas Tam, Lan e Taca têm voos para a cidade, todos com escala em Lima. A Avianca faz o trajeto com duas paradas: a primeira em Bogotá e a segunda em Lima. O trajeto mais idiota é o da American Airlines, que leva o viajante até Miami e ainda para em Lima antes de chegar ao destino final. Outra opção é comprar um vôo até Lima e de lá comprar uma passagem com alguma aérea peruana, como a Peruvian Airlines ou a Star Peru.

- Por terra: Outra opção que considerei foi ir por terra, através do Acre. De Rio Branco há ônibus que saem para Cuzco. Existe um site inteiro dedicado a isso, por sinal, o Peru via Acre, que tem dicas bem melhores do que eu jamais poderia dar. Para entrar no país de carro, vale dar uma olhada no relato da amiga e roadtripeira Mariana Gabellini, aqui.

Acabei comprando uma passagem pela Taca com escala em Lima, uma conexão que entrou para a história como a mais entediante da minha vida: sete horas e meia de chá de cadeira.